25 fevereiro 2007

Tercília, a mãe das mães


Quando seu filho Josemar, então com 15 anos, desapareceu durante uma festa junina que acontecia em frente a uma praça, diante de sua casa, há exatos 15 anos e meio, Tercília Frederico, 61 anos, viu seu chão ruir . Decidida a encontrar o menino, percorreu sozinha várias instituições que abrigavam portadores de doenças psíquicas como seu filho. "Nesses hospitais encontrei várias crianças que se perdiam e acabavam recolhidas, mas que os funcionários não tinham condições de procurar suas famílias. Até hoje penso que o mesmo pode ter acontecido com meu filho", acredita.

Desde essa época Tercília começou a sonhar com um projeto que ajudasse a localizar crianças desaparecidas. "Quando falava de meu desejo as pessoas, muitas me olhavam com incredulidade. Eu era uma mulher pobre, humilde. Ninguém acreditava que uma mulher de minhas condições tivesse capacidade de levar esse sonho adiante", relembra.

Em 1992, durante a novela Explode Coração, de Glória Perez, Tercília conheceu a jornalista Wal Ferrão, que foi fazer uma matéria sobre a campanha que estava sendo realizada pela autora na TV Globo. “Olhei para Wal e senti que ela poderia me ajudar. Ela ficou assustada com a proposta. Disse que não entendia nada sobre desaparecimento de crianças, mas mesmo assim aceitou continuar a divulgação após o término da novela. Até que em 1999 criou um projeto baseado nos meus sonhos e no de outras mães, projeto que batizamos de Mães do Brasil", conta Tercília.

Foram sete anos de muita luta, mas Tercília sempre animava Wal a prosseguir. O trabalho começou a ganhar repercussão depois que as mães conheceram a atriz Susana Vieira, durante a novela Senhora do Destino, em 2004 e receberam convite do autor Aguinaldo Silva para gravar uma cena da novela na TV Globo. Depois veio o convite para realizar uma campanha na novela Prova de Amor, da Rede Record, onde o autor Tiago Santiago criou várias cenas sobre o trabalho das Mães do Brasil, além de uma campanha que contou com a participação das mães. Em 2006 veio a participação no programa Criança Esperança. O projeto Mães do Brasil foi selecionado e hoje é desenvolvido com o apoio da TV Globo e Unesco. “Nos dois primeiros meses do projeto localizamos três crianças. Mãe nunca perde a esperança de encontrar o filho, por mais que se passem os anos. A cada criança que encontramos, cada mãe que conseguimos consolar, é como se o Josemar voltasse para casa. Hoje, sou considerada a mãe das mães. A Wal, inclusive, me chama de mãe Tercília. O mais bonito nessa história é que construimos uma segunda família. Não sabemos mais viver umas sem as outras”, finaliza.

Por Luciana Tecidio
luciana.tecidio@portalkids.org.br

15 fevereiro 2007

"O amor não morre!" - mensagem das Mães do Brasil à família de João Hélio


A dor da violência cometida contra um filho é um sentimento indescritível. É como se a família fosse jogada contra um muro e toda a sua estrutura se destroçasse. O que fazer para continuar sobrevivendo? Se arrastar pela vida ou se tornar um ser humano melhor? As integrantes das Mães do Brasil, que têm seus filhos desaparecidos, abraçaram a segunda alternativa e mesmo com sua dor, dão prosseguimento à vida de cabeça erguida, dignidade, fé e determinação.

Abaladas com o crime que chocou o Brasil, a morte de João Hélio Fernandes, de seis anos, que foi arrastado pelas ruas do Rio de Janeiro por bandidos preso ao cinto de segurança do carro roubado de sua família na quarta-feira, 7, nossas mães se solidarizam com a família do menino e deixam aqui sua palavra de apoio para a mãe dele Rosa Cristina, o pai Hélcio e a irmã de 14 anos, Aline.

TERCILIA FREDERICO, 60 anos, mãe de Josemar

“Aconselho a mãe do João a não desistir da vida. Que ela tenha muita fé em Deus e que siga em frente. Há 15 anos, quando meu filho desapareceu, não queria aceitar isso de jeito nenhum. Fiquei desorientada. Mas encontrei força para seguir. Me uni a outras mães, lutei para criar o movimento Mães do Brasil e com elas descobri que não era só eu que tinha uma dor. Que tinha gente sofrendo como eu. Minha vontade é ir com todas as Mães do Brasil até a mãe do Joãzinho e dizer a ela que a ferida não cicatriza, mas que Deus dá forças para superarmos a dor. Vamos convidá-la para ir a uma das reuniões do nosso movimento para que possa sentir de perto o nosso carinho”.

AMPARO GOMES DA SILVA, 34 anos, mãe de Jones

“Apesar do nosso sofrimento, temos sempre alguém que se solidariza conosco. E temos a Deus! Mesmo com toda a brutalidade que Joãozinho morreu, ele está livre da violência deste mundo”.

ELISABETE LIMA BARROS, 36 anos, mãe de Thaís

“Estamos unidas nesta dor. É como se fosse meu filho. O que nos une a família dele é o mesmo sofrimento. Só peço a Deus que conforte seus corações. Parece que foi ontem que minha filha Thaís foi seqüestrada. Quando cheguei no local onde ela desapareceu, tive a impressão que o chão desmoronou, que a vida acabou para mim. Mas segui em frente, me uni as Mães do Brasil. Os pais dele têm o nosso apoio. Ainda existem pessoas humanas no mundo. Tem muita gente dando as mãos para eles assim como dão as mãos para nós”.

DIANA SOARES DA CONCEIÇÃO, 31 anos, mãe de Dyanna

“Meu coração diz para Rosa, a mãe do João, para ter fé e acreditar que vai existir justiça nesse país. A minha dor não se compara à dor que ela passou quando o filho foi morto daquele jeito. Não sei se é pior ter um filho seqüestrado ou vê-lo morto da forma com ele foi pelos bandidos. O mundo inteiro sofre com a dor dela”.

LÚCIA HELENA, 39 anos, mãe de Ailton

“Que Deus dê força para a mãe de João nessa luta. É uma dor que não acaba. Tem que ter fé e rezar para os que ficaram. Nossa mão amiga está estendida para ela e sua família”.

Por Luciana Tecidio
luciana.tecidio@portalkids.org.br

Cristiane Nascimento participou de missa e passeata

Cristiane Nascimento, mãe de Amanda, seqüestrada e morta aos nove anos no ano de 2002 no Rio de Janeiro, foi à missa em homenagem a João Hélio na igreja da Candelária no dia 14 de fevereiro e participou da passeata por Justiça representando as Mães do Brasil. Como conhece a dor de ter um filho assassinado, Cristiane fez questão de dirigir palavras de conforto a família do menino em nome das integrantes do movimento.

“Elas não puderam se ausentar do trabalho. Eu, que tenho um horário mais flexível, fui levar o nosso carinho e pedir Justiça por nossos filhos. Também foi citado o nome de Amanda, o que me deixou feliz. Mas mesmo se isso não tivesse acontecido, não teria problema porque nossa dor é uma só. Acabamos desenvolvendo pelas outras crianças que são vítimas de violência o mesmo amor que temos pelos nossos filhos. Disse a Rosa para prosseguir. Até pouco tempo achava que não conseguiria sobreviver à dor da perda da minha filha, mas aprendi, junto com as Mães do Brasil, que o amor não morre. Continuamos ligadas a nossos filhos pelo coração.”

08 fevereiro 2007

Coordenadora do Culinária para Festa ganha lição das Mães do Brasil


Um dos maiores presentes da vida da auxiliar de enfermagem Cátia Regina Nascimento Costa, de 35 anos, foi ter convivido com a avó Virgulina, que morreu quando ela ainda era adolescente. Dona Virgulina era uma exímia cozinheira. Seu talento a tornou requisitada na casa de várias pessoas em Copacabana, zona sul do Rio de Janeiro. Mas foi na cozinha da casa da avó que Cátia passou as melhores horas de sua juventude. Era lá que a hoje auxiliar de enfermagem, casada e mãe de três filhos adolescentes, aprendeu boa parte dos truques culinários de dona Virgulina.

Esse aprendizado deu a Cátia a capacidade de se tornar à coordenadora do projeto Culinária para Festa, desenvolvido pelo Portal Kids com o apoio da DKA-Áustria e do Fundo Angela Borba de Recursos para Mulheres. “Tomei conhecimento do trabalho da ONG através de ouvir a Wal Ferrão falar sobre as Mães do Brasil com tanta paixão”, lembra Cátia. “Fiquei curiosa de ver como era o trabalho e ao saber do curso de culinária oferecido às mulheres de comunidades, entre elas, algumas das mães das crianças desaparecidas, me ofereci para participar, uma vez que também já fiz bolo para fora”.

Antes de estudar enfermagem, a neta de Virgulina trabalhava numa loja de roupas infantis num shopping do Rio de Janeiro. Paralelo ao trabalho do comércio, ela também fazia bolos sob encomenda. “Ao participar do Culinária para Festa, senti que podia doar um pouco do meu conhecimento para essas mães que tentavam encontrar ali um meio de superar a dor da perda dos filhos”. No entanto, foi Cátia quem mais aprendeu com elas. “Aprendi que quando a gente olha o problema da outra pessoa, os nossos problemas se tornam pequenos. O que mais me deixa feliz é acompanhar a evolução delas ao longo do curso. Muitas chegam arrasadas, sem esperança e, com as aulas e o aprendizado, vão ganhando alegria de viver e vontade de vencer. Isso sim é que é lição de vida!” (Foto: Fundo Angela Borba de Recursos para Mulheres)

Por Luciana Tecidio
luciana.tecidio@portalkids.org.br

Amanda, por Mariana Massarani



Amanda era uma menina muito linda, doce e amorosa. Seus irmãos a chamavam "meu anjo".
Pela descrição que demos da criança que ela foi, Mariana Massarani fez essa ilustração para acompanhar cada vitória profissional de sua mãe, Cristiane Nascimento.

03 fevereiro 2007

Amanda Confeitagem


Desde 2002, Cristiane Nascimento, 36 anos, esqueceu o que era alegria e caiu numa profunda depressão. No dia 28 de junho daquele ano, sua filha Amanda, então com nove anos, saiu de casa para ir ao supermercado e desapareceu. O corpo da menina foi localizado cinco dias depois de ter sido seqüestrada por um desconhecido.

Daquele ano até a metade de 2006 a única justificativa de sua sobrevivência era colocar o assassino da filha atrás das grades. A vida havia perdido o sentido para ela e o uso de anti-depressivos virou uma dependência.

Mas numa dessas reviravoltas inexplicáveis do destino, Cristiane, que é integrante do projeto Mães do Brasil desenvolvido pelo Portal Kids com o apoio do Criança Esperança, projeto da TV Globo em parceria com a Unesco, começou a fazer o curso Culinária para Festa, que tem o apoio da DKA-Áustria e do Fundo Angela Borba de Recursos para Mulheres . Aprendeu a fazer bolos confeitados e, desde então, sua vida tomou outro sentido: "Fiquei tão empolgada e feliz, que me curei da depressão. As lágrimas, a dor, tudo foi indo embora. Descobri que não podemos abaixar a cabeça para a dor. Temos de ir à luta", aconselha Cristiane.

Com o curso, ela descobriu o dom de fazer bolos lindos e deliciosos e, o melhor, passou a acreditar no seu potencial. "Todo o fim de semana tenho mais de uma encomenda. A produção aumenta a cada dia e penso até em contratar uma ajudante".

O próximo passo é concretizar o sonho mais recente, o de abrir uma firma, a Amanda Confeitagem. "O nome será em homenagem à minha filha que, tenho certeza, está muito feliz com o meu sucesso lá no céu!"

Cristiane Nascimento aceita encomendas de bolos no email: amandaconfeitagem@portalkids.org.br

Por Luciana Tecidio
luciana.tecidio@portalkids.org.br