09 Outubro 2009

A questão do conflito familiar


A lei 11.259 de 30 de dezembro de 2005 determina investigação imediata para casos de desaparecimento de criança ou adolescente. Muitas delegacias ainda ignoram e até mesmo desconhecem essa lei. Mesmo sendo efetuado o registro da ocorrência a grande maioria desses casos acabam engavetados. É difícil conseguir investigação para sequestros sem pistas ou desaparecimentos de crianças e jovens devido à falta de uma política de atendimento especializada neste tipo de crime. Dificulta ainda mais o preconceito gerado pela difusão da estatística de que os desaparecimentos são motivados em sua maioria por conflitos familiares.
“Aquele que não tiver pecados que atire a primeira pedra!” Quem pode dizer que vive em uma família sem conflitos? Famílias em conflito necessitam de assistência e não de condenação. Mais grave do que a fragilidade social das famílias dessas crianças vitimadas é a falta de proteção que elas se encontram nas ruas e em cativeiros sexuais.
Não dá mais para usar o argumento do conflito familiar para justificar a falta de ação de quem deveria proteger crianças desaparecidas e suas famílias.
Em relação a desaparecidos adultos ou menores do sexo masculino o preconceito ainda é maior. Dos quatro meninos do quadro – acima e da esquerda para direita Jones, que desapareceu do pátio da escola onde estudava no Rio de Janeiro, ao seu lado Ronizinho, que sumiu durante os festejos de Réveillon no Centro do Rio, em baixo Rafael que sofreu um sequestro relâmpago e chegou a ligar para casa pedindo resgate e Luís Paulo que desapareceu quando saiu de casa para visitar a avó – apenas Luís Paulo estava vivendo conflitos próprios da idade. Por causa disso, sua família deve permanecer sem saber o que aconteceu com Luís Paulo? Por que ele sumiu sem deixar pistas? Quem sequestrou Rafael? Onde estão Jones e Ronizinho?

07 Outubro 2009

Nossas filhas merecem a vida


À noite e o dia depois do julgamento do sequestro de Larissa foi muito difícil para nós. Ontem ainda não tivemos o resultado do julgamento, que terá nova audiência em dezembro, por ser um caso muito complexo e não se tratar de júri popular. Algumas de nós não dormiram, outras praticamente desmaiaram na cama. Hoje nos falamos o dia inteiro, consolando umas as outras, trocando apoio mútuo.
Ontem foi um dia de vitória e de tristeza. Vitória por estarmos conseguindo levar ao banco dos réus o suspeito de um sequestro de menina sem pedido de resgate no Rio de Janeiro. Sequestro de uma menina pobre, num caso que precisamos entregar a investigação na mão da polícia, quando deveria ser ao contrário. Primeiro tivemos que provar que as mães eram vítimas e não agentes de sua própria tragédia num Estado em que se propaga que os desaparecimentos só ocorrem devido à violência doméstica. Isso gera um preconceito contra as famílias muito grande e dificulta e justifica a não realização de investigações.
O que dizer de Thaís, de apenas nove anos, sequestrada de uma feira-livre e que deixou como prova de que era bem tratada um bilhete onde declara seu amor a mãe? A família dela foi ontem para o tribunal. Quando deveriam estar indo para sua festa de aniversário. Thaís completou 16 anos ontem. Pela primeira vez sua mãe esteve diante do suspeito de seu sequestro.
“Há 16 anos eu estava na maternidade sofrendo dores de alegria para ter minha filha. Hoje estou no tribunal sentindo a dor do desespero por sua perda”, disse Elisabete, mãe da Thaís.
A dor de Daniel, o tio de Larissa, que a criava e amava como filha, foi outro momento muito duro. Daniel deu ontem sua primeira entrevista para a TV Record. Ele nunca tinha falado para a imprensa, mal fala de sua dor para aqueles que lhe são mais caros. Daniel guarda o sofrimento para si, mas ontem disse num depoimento emocionado:
“Perdi toda a minha família num incêndio. Não vou também perder Larissa. Não aceito que me entreguem Larissa morta. Larissa tem que estar viva. Ela merece estar viva!”
A palavra de Daniel também é nossa. As meninas merecem a vida! Nós merecemos respeito. Lutaremos pela vida delas e pela dignidade de nossas famílias até o fim. Para nossos filhos não faltou amor e nem cuidado. Falta investigação, proteção, políticas de atendimento para casos de sequestros e desaparecimentos enigmáticos. E coragem das autoridades para admitir isso. Mas amor e cuidado de nossa parte, não!