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13 novembro 2016

Mergulhando no medo


Um medo específico estava me perturbando. Me dei conta que só iria entendê-lo se fizesse contato com ele. Comecei a estudar a sensação de medo de uma forma geral. A observar os medos que habitam em mim, nas pessoas que convivo e nas que me são estranhas e/ou desconhecidas. Percebi que a raiz do meu medo e acho que de grande parte das pessoas reside na perda. Perda da ilusão, da segurança, dos bens, da saúde, de pessoas amadas, da vida. Principalmente medo de que a perda seja permanente. Amamos a continuidade.  Tanto que está na imortalidade o grande enigma da humanidade.

Eu estava com medo que minha perda se tornasse permanente. Venho lutando há anos para recuperar o bem perdido, apesar de ter sofrido perdas bem mais graves, a de seres amados.

Mas a perda em questão me tirou literalmente o chão, me tirou da zona de conforto, da segurança, da sensação de controle. No entanto, a temível perda me transportou para um mundo totalmente diferente, desconhecido e tenho que admitir muito mais rico e divertido. Descobri que a perda é uma porta que nos leva a um outro lugar, desconhecido, que nos deixa nús, rouba nossos apegos. Ou, se teimamos em permanecer estacionados na dor que a perda provoca, ela abre uma janela que nos faz enxergar o mundo, o outro e a nós mesmos. Temos a tendência a rejeitar – muitas das vezes odiar - tudo e todos que nos façam enxergar verdades. Verdades nos perturbam. Não queremos ser perturbados. Antes estar narcotizados. Iludidos.

Vem então o apego as crenças na esperança que resolvam a dor por nós ou nos restituam as perdas. Mas o que chamam Deus está nas crenças? Ou está justamente no fim do medo. Posso viver sem medo? Encontrar a manifestação Divina em sua forma mais pura? Encontrar o Deus que habita em mim?

Por Wal Ferrão


wal.ferrao@portalkids.org.br

16 setembro 2015

Visita a Sidinéia

Wal e Luciene com Sidinéia exibindo a filha Larissa no peito

Na segunda, 14, eu e a mãe Luciene Torres fomos visitar a Sidinéia Machado. Sua filha Larissa, de 14 anos, que estava desaparecida, teve o corpo identificado. Sidnéia passou por toda a "via crucis" da mãe que teve a filha desaparecida. Buscas sem fim em recantos perigosos do Rio de Janeiro para apurar denúncias que chegavam para ela, IML, hospitais. Quando um corpo de menina foi encontrado com as características de sua filha, ela não pode acreditar. Fez o DNA e depois de uma espera de quase 9 meses, um segundo parto, descobriu que a filha havia mesmo voltado para Deus. Nessa busca perdeu emprego, a paz, a tranquilidade. Ganhou aquela dor desumana da mãe que perde seu filho.

Sidinéia ficou muito feliz com nossa visita. Misturou sorriso e lágrimas. Fez questão de posar conosco com a camiseta da foto da filha Larissa.

Contei para ela a história de Krisha Gotami que conto para todas as Mães do Brasil. Esperamos e desejamos a Sidinéia muita força nesse momento de luto.

Reproduzo aqui a história de Krisha Gotami que já publiquei uma vez nesse blog, retirada do Evangelho de Buda:
“Krisha Gotami teve um filho e este morreu. Desesperada de dor ia com o menino morto de casa em casa, pedindo um remédio. Mas as pessoas diziam:

“Está doida! Esta criança está morta!"

Mas um camponês teve pena dela e sugeriu que fosse procurar o Buda.

Krisha Gotami foi ver o Iluminado e exclamou, chorando:

“Senhor meu e mestre. Meu filho estava brincando entre as flores e tropeçou numa serpente que se enroscou no seu braço. Ficou logo pálido e silencioso. Não posso aceitar que ele deixe de brincar ou que deixe o meu colo. Senhor meu mestre, dá-me um remédio que cure o meu filho.”

O Iluminado respondeu que a única coisa que podia curar a criança e também a ela, se pudesse consegui-la, era uma simples semente de mostarda preta, muito comum na Índia, mas que só poderia ser obtida de uma casa que não tivesse morrido ninguém.

Aflita, Krisha Gotami foi de casa em casa pedindo o grão de mostarda. As pessoas se compadeciam dela e lhe davam, porém, quando ela perguntava se já tinha morrido alguém naquela casa, lhe respondiam:

“Ah! Poucos são os vivos e muitos os mortos. Não despertes nossa dor.”

Agradecida, ela lhes devolvia a mostarda e continuava a busca, sem encontrar nenhuma casa onde não tivesse morrido alguém.

Krisha Gotami voltou chorosa para o Iluminado dizendo-lhe:

“Ah! Senhor, não pude encontrar mostarda em casa onde não tivesse havido morte. Então, entre as flores silvestres, na margem do rio, deixei meu filho que não queria mamar nem sorrir, e volto para ver teu rosto e beijar teus pés suplicando-te que me digas onde encontrar essa semente, sem deparar ao mesmo tempo com a morte, pois, apesar de tudo não posso crer na morte de meu filho, como todos me disseram e temo tenha acontecido.”


O mestre respondeu-lhe:

“Procurando o que não podes encontrar, achaste o amargo bálsamo que eu queria dar-te. Sobre teu seio, o ser que amas dormiu hoje o sono da morte. Agora já sabes que todo mundo chora uma dor semelhante à tua. O sofrimento que aflige todos os corações pesa menos do que se concentrado num só. Escuta! Derramaria eu meu sangue se, ao derramá-lo pudesse deter tuas lágrimas e descobrir o segredo de o amor causar angústia e através de prados floridos conduzir-vos ao sacrifício, qual mudos animais conduzidos por seus donos. Nenhum nascido pode evitar a morte. Assim como os frutos maduros caem da árvore, assim os mortais estão expostos à morte desde que nascem. A vida corporal do homem acaba partindo-se como a vasilha de barro do oleiro. Jovens e adultos, néscios e sábios, todos estão sujeitos à morte. Porém, o sábio que conhece a Lei não se perturba, porque nem pelo pranto nem pelo desânimo obtém a paz, mas pelo contrário, avivam as dores e os sofrimentos do corpo. A morte não faz caso de lamentações. Morre o homem, e seu destino está determinado por suas ações. Embora viva dez ou cem anos, acaba o homem por separar-se de seus parentes ao sair deste mundo. Quem deseja a paz da alma, deve arrancar de sua ferida a flecha do desgosto, da queixa, da lamentação. Feliz será aquele que consegue vencer a dor. Sepulta tu mesma o teu filho.”

Extenuada pela dor, Krisha Gotami sentou-se à beira do caminho, pôs-se a meditar no silêncio do entardecer e disse consigo: "Quão egoísta sou eu em minha dor! A morte é o destino comum de tudo quanto vive. Porém, neste vale desolado há um caminho que conduz à imortalidade - aquele que elimina de si todo egoísmo.

E sufocando o amor egoísta que sofria por seu filho, enterrou-o no bosque. E foi logo refugiar-se no Iluminado, e encontrou consolo que alivia o coração dilacerado pela dor.”





18 setembro 2013

Vitória da Motorista

A Mãe do Brasil Raquel Cordeiro é uma guerreira. Já enfrentou muitas batalhas na vida, perdas de entes amados, sequestro da sobrinha que criava como filha. Para conseguir levar ao banco dos réus o autor do sequestro e condená-lo, Raquel enfrentou calúnias, difamações, ameaças, doenças, períodos de depressão. Até o dia em que ouviu do filho caçula que ela precisava se levantar da cama para cuidar dele. Aquelas palavras bateram fundo. Ela viu que não podia desistir. Primeiro se reinventou e depois foi reinventando a vida aos pouquinhos.
Restava um medo. Por incrível que pareça era o de tirar carteira de motorista. Olha a foto da guerreira motorizada. Parabéns, Raquel!

13 maio 2012

Dia das Mães

Doeu demais!
O dia de hoje sem você...
Sua cama pareceu mais vazia,
a boneca mais imóvel, a bola mais esquecida.
A casa esteve mais silenciosa do teu riso,
do som da tua voz.
Doeu demais hoje...
Imaginar como estará teu rosto
depois de tanto tempo
A ausência do teu amor
do teu beijo, do teu presente
Doeu demais hoje
Não sentir o teu abraço,
o teu cheiro.
Doeu demais imaginar
Que talvez jamais ouvirei tu me chamar de
Mãe!

01 maio 2011

Com medo de sair da toca


Há muito tempo tomei conhecimento de uma experiência nos EUA realizada com psicopatas assassinos e abusadores de crianças. Foram exibidos para eles depoimentos de como ficaram a vida dos familiares de suas vítimas. A experiência ajudou no tratamento e recuperação desses criminosos.

Ah... se os responsáveis pelos sequestros e desaparecimentos de crianças tivessem acesso a dor, ao trauma e ao dia-a-dia das famílias de suas vítimas, será que eles não seriam tocados de alguma maneira?

Não falo da dor que mostramos aqui. Dor pequenina em comparação a que presenciamos e lidamos ao realizar esse trabalho. Falo da dor real, avassaladora, invisível e silenciosa que não podemos mostrar, só viver, para não chocar e afugentar as pessoas que conosco lidam. Afinal, os famílares de desaparecidos, como todo mundo, precisam ser aceitos, queridos. Além da dor da perda, vivem também a dor da exclusão, já que o sofrimento de quem tem um parente desaparecido e que não volta, continua eternamente pela vida afora.

Estamos agora lidando com o caso de um adolescente enfrentando diversos problemas emocionais devido a perda que atingiu sua família: medo de sair, medo de conviver com outros jovens de sua idade, medo de crescer, medo de viver. Já tentamos de tudo, mas o medo persiste. Como convencê-lo de que precisa sair da zona de conforto provocada pelo medo e pela falsa sensação de segurança? Convencê-lo de que a vida, apesar de assustadora, precisa ser vivida? Que a vida vale a pena? Como convencê-los de que a felicidade é importante se para suas mães ser feliz implica em culpa? É possível ser feliz sem saber onde um ser amado está? Com essa eterna condenação temos que lidar em todos os momentos.

Será que sequestradores de crianças imaginam quantas pessoas afetam como ato de retirá-las de casa? Será que eles tem ideia de quantas pessoas roubam o direito de felicidade e vida plena?

Apesar dos pesares, o medo jamais pode vencer a fé em si mesmo.