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22 agosto 2020

Você vai mandar seu filho para a escola caso as aulas sejam retomadas?

 

Como tudo que envolveu a pandemia do Covid_19 no Brasil gerou polêmica, com o retorno as aulas não poderia ser diferente. Por aqui já aconteceu muita confusão, adiamentos judiciais e, principalmente, medo e insegurança por parte dos pais e alunos.

A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco)i divulgou que 100, dos mais de 190 países que tiveram suas escolas fechadas, ainda não anunciaram a data oficial de reabertura, 65 países planejam uma reabertura parcial ou total e 32 não retomarão mais as aulas presenciais esse ano.

Você está disposto a enviar seu filho para a escola caso ocorra à reabertura? Considera esse retorno seguro nesse momento, ou teme uma reativação dos contágios da doença? Prefere que o ensino continue sendo à distância? Considera que seu filho está aprendendo? Seu filho encontra-se bem emocionalmente para retomar as aulas? E as escolas, têm lhe passado segurança em relação aos cuidados sanitários e a proteção dos alunos?

Não há dúvida que a suspensão das aulas nas escolas está influindo negativamente na educação, criando ou acentuando a crise no aprendizado, aumentando o risco de exploração, fome e violência aos alunos em situação de vulnerabilidade. Além de educação, escola também proporciona alimentação, apoio e proteção social.

Tantas questões a serem avaliadas. A pandemia continua a avançar, sem certezas do que é ou não correto fazer, por se tratar de um vírus ainda desconhecido para os próprios cientistas e profissionais de saúde, e sem uma vacina.

Ideal será que ocorra uma comunicação e acordo entre pais, professores e estudantes, respeitando as características das famílias, instituições de ensino e as localizadas onde as escolas funcionam. Se esse envolvimento não lhe for oferecido e as decisões forem impostas e não discutidas, busque o diálogo. A motivação para o retorno das aulas não pode ser apenas econômica e política. Cabe aos pais, professores e alunos participarem do processo. A pandemia nos levou a rever valores, promover adaptações e mudanças. As escolas precisarão voltar mais fortes e você pode ser peça chave e importante nessa melhora na educação.

Acha que sua participação é impossível? Se aprofunde na nossa história e veja quantas vitórias as Mães do Brasil conseguiram na mudança da política de atendimento aos desaparecidos. Elas, mulheres humildes e de periferia, conseguiram sensibilizar uma jornalista a ser porta voz da causa delas e, unidas, mudaram a mudam a história do combate ao desaparecimento de pessoas no Brasil. Não tenha medo de exigir os direitos de seus filhos.


19 março 2011

Ser diferente

Em recente reunião de trabalho com a diretora Valéria Magalhães ela me contou a história de uma garotinha que está acompanhando. A menina, que ano passado estudava numa escola com método de ensino diferenciado, onde os talentos individuais das crianças são valorizados e estimulados, entrou este ano para uma escola que segue o ensino tradicional e está tendo muitas dificuldades de adaptação. Aluna brilhante, a criança também se destacava em aulas de teatro, música e dança que fazia na antiga escola. O bom desempenho que vem conseguindo nas matérias em sala de aula tem motivado os ciúmes e as chacotas das novas amiguinhas de turma, que implicam com ela usando o fato de ser gordinha. A menina foi aconselhada pelos parentes a reagir à altura as provocações; mas, por ser muito sensível, ela não consegue revidar. Preocupados, os pais já pensam em transferi-la novamente para a antiga escola.

E por que não fazem isso? – eu quis saber.

“A avó acha que estudar numa escola com método tão diferenciado acabará por superprotegê-la e deixá-la incapacitada ao convívio social” – respondeu-me Valéria.

Até meus nove anos também estudei numa escola experimental. Chamava-se Reino Encantado e ficava na Rua Valparaíso, na Tijuca, Zona Norte do Rio de Janeiro. A escola, para minha desventura, fechou as portas e meus pais não conseguiram outra com sistema de ensino semelhante. Passei metade do ano letivo entrando e saindo de escolas tradicionais sem conseguir me adaptar a nenhuma. Acabei cedendo a uma que ficava próxima de minha casa atendendo ao sensato argumento de meu pai que era melhor estudar em uma escola tradicional do que ficar sem estudos. Adiantada demais, pulei uma série, onde as crianças eram todas mais velhas do que eu. As mesmas também sentiam ciúmes de meu desempenho em sala de aula e custei a fazer amigos. Continuei a mesma aluna aplicada, mas em comportamento, me transformei numa verdadeira peste. Minha mãe foi tantas vezes chamada à secretaria para receber reclamações de minhas travessuras que, envergonhada, encarregou meu pai de tentar dar um jeito em minha rebeldia. Entre outras coisas: puxei o véu de uma irmã para ver como era o seu cabelo, fugia da aula de religião pulando o muro da escola e cortei a bainha da saia do uniforme por me recusar a ir com uma saia até os joelhos. Meu pai tentava impedir minha expulsão lembrando a diretora que eu só estava tentando chamar atenção. Quem sabe se fosse ignorada... Sosseguei por fim quando o colégio contratou uma professora de música e teatro, a Maria Alice Sena, que é minha amiga até hoje e foi maestrina do Coral das Mães do Brasil durante o projeto Criança Esperança. Com o fim das aulas de artes no colégio, segui triste e inadaptada até o primeiro ano Normal quando fui reprovada em português por meio ponto, uma vergonha para uma aluna que até então só tirava 10. Realmente, há males que vem para bem. Minha mãe descobriu uma escola pequena, sem tradição de ensino, mas que tinha dependência e uma filosofia semelhante ao Reino Encantado de minha infância. Nesta escola voltei a ser a aluna dedicada que se formou no Normal e no Cientifico com 17 anos. Ambas as escolas tiveram um significado especial em minha formação. Escolas que valorizam individualmente os alunos formam seres humanos que valorizam mais a vida e o semelhante.

Ser diferente é difícil, incomoda, chama atenção, mas por que temos que seguir um padrão de comportamento que nos distancia da felicidade? Não está na hora do sistema educacional começar a valorizar também o aluno individualmente e não apenas se preocupar com a transmissão de conteúdo didático?

Por Wal Ferrão
wal.ferrao@portalkids.org.br