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19 fevereiro 2015

Meu filho cresceu. E agora?



Um filho muda radicalmente a vida de uma mulher que deseja ser mãe. A partir do nascimento cria-se um elo inquebrável, fundamental para a construção e manutenção física e psicológica de um ser humano. O filho precisa da mãe para se desenvolver e a mulher, ao exercer esse novo papel de formadora e condutora de uma vida, o coloca acima dos demais: esposa, profissional e individuo.

Esse apego mutuo entre mãe e filho vai até o período do que podemos chamar de desmame emocional. Ao chegar à adolescência o filho sente a necessidade de construir a própria identidade, busca independência e quer fazer as próprias escolhas.

A mãe, que abriu mão de boa parte de sua vida para viver em função do filho, se ressente desse afastamento e não aceita ser excluída. Tenta se manter no controle dos passos do filho com a alegação que não deseja vê-lo cometer os mesmos erros que cometeram. Mas é preciso aceitar que o filho cometerá os próprios erros e que aprenderá com eles, independente das tentativas de intervenção da mãe.

Ao invés de se apegar ao passado e tentar coibir a chegada do futuro, a adolescência do filho pode ser um momento especial para a vida da mãe. O momento em que ela também está mais livre e mais madura para se redescobrir e se reinventar, não só como individuo, mas como mulher e profissional. E acrescentar ainda um novo papel, a de amiga do filho.

 

 

30 outubro 2010

O grito


A mãe que me passou o texto abaixo (com reflexões para os pais) contou que anda recebendo reclamações do comportamento do filho de 11 anos na escola. Excelente aluno, o menino tem - na opinião de sua professora - um incomodo defeito. Fala demais, inclusive durante as aulas.

“Ele gosta mesmo de falar”, confirmou-me, desolada, sua mãe. “Outro dia fomos fazer um passeio e só se ouvia a voz dele no ônibus. Ontem, depois de chegar da escola, chamei a atenção dele. Mandei que segurasse definitivamente a sua língua!”

“Já perguntou o motivo dele falar tanto?” – questionei.

O espanto da mãe disse tudo. Tal iniciativa não lhe tinha passado pela cabeça. Para aplacar seu constrangimento contei a história de um aluno que tive quando lecionei para uma turma de maternal, numa escola no Méier, Zona Norte do Rio de Janeiro. O menino tinha três anos, eu 19. A pouca idade não o impedia de se esgoelar como um doido, todos os dias, pois adorava gritar. As demais crianças da turma se agitavam e me pediam:

“Tia, faz esse menino calar a boca!”

Tentei todo o tipo de argumento, mas ele explicou-me que gritava assim para imitar o carro de bombeiro, profissão que admirava. Um dia também me estressei e gritei:

“Chega! Pare de gritar que está me deixando louca!”

O menino emudeceu na hora e arregalou os olhos, assim como seus coleguinhas de turma. Acho que era a primeira vez que escutavam um grito meu. Aproveitei o silêncio para prometer:

“Se você não gritar mais o tempo todo, prometo que amanhã, no recreio, deixo você gritar até cansar.”

Ele concordou e no dia seguinte, assim que chegou para a aula, tratei de relembrar nosso trato. Na hora do recreio reuni as crianças numa roda e esperei que desse o primeiro grito. Mas quem disse que ele abria a boca. Convidei uma a uma as crianças a começar. Como nenhuma gritou, eu mesma iniciei a brincadeira, que terminou numa grande algazarra. As babás do berçário não acharam graça e vieram reclamar do barulho, mas revolucionária como sempre, garanti o direito de meus alunos gritarem. Ao menos na hora do recreio. A gritaria, para felicidade geral de todos na escola, não durou nem uma semana. Uma a uma as crianças foram se desinteressando da brincadeira. Até mesmo o menino que gostava de gritar. Um dia, ao ser chamado para “hora do grito”, como batizei “o movimento”, ele comunicou:

“Tia, não quero gritar mais não!”

“Ah... Por que?” – lamentei

“É chato!”

No aniversário dele o presenteei com um carro de bombeiros.

A mãe que me ouviu contar a história a considerou muito divertida. Sugeri que naquele mesmo dia sentasse com o filho e o deixasse falar. O que quisesse. Procurasse ouvi-lo, conversar com ele, mas evitasse ditar regras, como quando ordenou que ele segurasse a língua. Animada, ela prometeu experimentar e depois me contar o resultado.

A ilustração é do quadro O Grito, de Edvard Munch, de 1893. A fonte de inspiração do pintor norueguês (*1863/+1944) pode ser encontrada na sua própria história pessoal. Educado por um pai controlador, o artista assistiu em criança à morte da mãe e de uma irmã.

Por Wal Ferrão
wal.ferrao@portalkids.org.br