22 novembro 2016

Noite de premiação


Wal e Tercília com os premiados da noite, a Juíza Adriana e o Desembargador Caetano,
recebendo o prêmio das mãos dos filhos de Patrícia Acioli, Raquel, Bete e Tercília, as premiadas
Na noite de 7 de novembro estivemos na entrega do Prêmio Amaerj de Direitos Humanos Patrícia Acioli. Não fomos premiados, mas o projeto Mães do Brasil ganhou uma menção honrosa e das mãos dos três filhos da falecida magistrada. A caçula completava 18 anos justamente neste dia. Para nossos leitores de diversos países que possam não ter tido o privilégio de conhecer o legado da Juíza, ela foi assassinada com 21 tiros na porta de sua casa em Niterói, Região Metropolitana do Rio de Janeiro, em 12/08/2011, por policiais que julgava e que pertenciam ao crime organizado que combateu bravamente. Corajosa, a magistrada levou para a prisão mais de 50 policiais ligados as milícias e grupos de extermínio. Ao todo, 11 policiais militares, denunciados pelo Ministério Público do Rio, foram julgados e condenados pelo crime contra ela.

Com o objetivo de homenagear sua memória e perpetuar a luta de Patrícia pelos Direitos Humanos, a Associação dos Magistrados do Estado do Rio de Janeiro (AMAERJ) criou o prêmio no ano seguinte a sua morte. E também para aproximar a Justiça da sociedade que trabalha em prol da dignidade humana. Já nos sentimos premiados pela indicação, por tudo que esse prêmio representa. E o dedicamos a outra magistrada, Dra. Adriana Ramos de Mello, auxiliar da Presidência do Tribunal de Justiça do RJ e Juíza Permanente do Fórum de Defesa da Mulher. Desde que conheceu a presidente me conheceu numa CPI em 2012, Dra. Adriana tem sido uma defensora incansável dos desaparecidos e das Mães do Brasil.

Na verdade, nosso convívio com Dra. Adriana se intensificou em 2014. As Mães do Brasil, decepcionadas com a Justiça, resistiam à ajuda dela. Mas, ao contrário de se ofender, Dra. Adriana olhou para as mães com um olhar maternal, aquele olhar de compreensão que uma mãe tem para o filho ainda imaturo para as coisas do mundo. E tratou de nos ensinar o que é a Justiça, a valorizá-la e a lutar pela Justiça que queremos. Como Dra. Adriana Ramos de Mello representa para nós a face dessa Justiça, dedicamos o prêmio a ela. E, para nossa honra, ela esteve presente na cerimônia e sentou no lugar de honra com a gente. O diretor da Escola Magistratura do Rio de Janeiro (EMERJ), Desembargador Caetano Fonseca da Costa, também um apoiador das Mães do Brasil, compôs a mesa, muito feliz por nós.

Wal fez questão de apresentar aos convidados que foram prestigiar as Mães do Brasil, a verdadeira criadora do movimento, Tercília Frederico. Em 1998, ao ser entrevistada por Wal, então repórter de uma editora europeia, Tercília, cujo filho Josemar, de 15 anos, portador de necessidades especiais, desapareceu da porta de sua casa, no bairro de Vila da Penha, durante uma festa Junina, pediu à jornalista que montasse para ela um projeto que atendesse as mães e ajudasse a localizar desaparecidos. Não descansou enquanto Wal não aceitou a missão. Tercília, que enviuvou recentemente, interrompeu o luto para receber o prêmio junto com Wal e avisou a ela e as Mães do Brasil presentes a cerimônia.

“Esse foi o nosso segundo prêmio! Vamos trabalhar para localizarmos muito mais desaparecidos, apoiar mais mães e merecer mais prêmios!” – estimulou.

Eu e as demais Mães do Brasil presentes nos entreolhamos, já prevendo. Ninguém segura Tercília, a mãe das Mães do Brasil.

Por Wal Ferrão

wal.ferrao@portalkids.org.br

17 novembro 2016

Raquel segundo Larissa: "A mãe que livra de todos os perigos!"


Raquel numa manifestação por Larissa e as crianças desaparecidas

Raquel Gonçalves é atendida pelo projeto Mães do Brasil do Portal Kids desde que sua filha Larissa, de 11 anos, foi sequestrada de dentro de sua casa em 2008. Raquel chegou ao Portal Kids igual um zumbi. Não falava e se recusava a interagir com o grupo. Nas rodas de conversa sentava-se numa cadeira num canto, distante de todos. Mas ficava ali. Aos poucos ela foi aproximando a cadeira e se incorporando a roda, não das conversas, mas da roda viva que representa o universo de uma mãe que tem um filho desaparecido. Ela é feita de desespero, impotência, solidão e uma violência atroz, não só a provocada pelo fato de ter um filho retirado de forma forçada de seu convívio, como aquelas pequenas violências verbais ditas por pessoas das mais diversas. Muitas vezes até sem intenção de ferir. “Acha logo sua filha antes que ela goste de ser prostituta!” “Coleta de impressão digital não é para pobre” “A ONG só trabalha para você!” A última foi ontem: “Ela não é mãe, é tia! Quem tinha que procurar não era ela” As palavras vieram de alguém que não conhece Raquel em sua intimidade. Raquel vem sendo mãe de suas sobrinhas desde que nasceram. Sei disso porque a primeira investigação que faço não é a jornalística, mais a humana. Eu investiguei muito bem o coração de Raquel e o de sua sobrinha que ficou. Outro dia ouvi um áudio da neta de coração dela cobrando. “Vovó... Estou com saudades de você!” Os atos de Raquel ao longo desses anos de convívio mostram seu espírito materno. Quantas vezes me cercou de cuidados, carinhos e proteção maternal. Mas age assim com todos com quem partilha a vida. Embora seja uma culinarista de mãos abençoadas, Raquel nasceu para ser mãe.

Achei importante fazer esse registro para não desencorajar outras mães de desaparecidos que não são biológicas, mas criam os filhos nascidos do coração com muito amor. Não se deixem afetar pelas opiniões alheias e continuem amando incondicionalmente. Exigindo das autoridades que não as consideram mães menos julgamento e mais trabalho. Lembre-se que o salário da autoridade que a julga é pago com seu dinheiro. Raquel mesmo resistiu por meses a entrar pela primeira vez no Ministério Público. Até que de tanto eu questionar sua atitude ela acabou me confessando que temia ser presa por não ser a mãe biológica de Larissa. Graças a Deus a demora não a impediu de finalmente tomar coragem e entrar. E com o apoio do Ministério Público indiciar e condenar o sequestrador de sua filha.

Ontem Raquel se entristeceu em mais uma vez, depois de tantas provas de amor incondicional que deu por Larissa, ouvir tal frase da boca de uma pessoa. Eu então repeti ela o que respondi a uma outra amiga ontem, ao conversarmos sobre maldade e ingratidão: Não detenha seu olhar na lama. Olhe para as flores.


Raquel, as flores da sua vida, sua filha mais velha, seu filho e sua neta, atestam diariamente a grande mãe e avó que você é. E nós também #maedobrasilguerreira 

A propósito, a última anotação do diário que Larissa ganhou de Raquel ficou registrada sua opinião sobre a mãe de coração. Raquel só descobriu isso depois que ela desapareceu, na tentativa de descobrir algo sobre seu paradeiro. Escreveu Larissa:

"Tia Raquel, a mãe que me livra de todos os perigos!"

Por Wal Ferrão
wal.ferrao@portalkids.org.br

13 novembro 2016

Mergulhando no medo


Um medo específico estava me perturbando. Me dei conta que só iria entendê-lo se fizesse contato com ele. Comecei a estudar a sensação de medo de uma forma geral. A observar os medos que habitam em mim, nas pessoas que convivo e nas que me são estranhas e/ou desconhecidas. Percebi que a raiz do meu medo e acho que de grande parte das pessoas reside na perda. Perda da ilusão, da segurança, dos bens, da saúde, de pessoas amadas, da vida. Principalmente medo de que a perda seja permanente. Amamos a continuidade.  Tanto que está na imortalidade o grande enigma da humanidade.

Eu estava com medo que minha perda se tornasse permanente. Venho lutando há anos para recuperar o bem perdido, apesar de ter sofrido perdas bem mais graves, a de seres amados.

Mas a perda em questão me tirou literalmente o chão, me tirou da zona de conforto, da segurança, da sensação de controle. No entanto, a temível perda me transportou para um mundo totalmente diferente, desconhecido e tenho que admitir muito mais rico e divertido. Descobri que a perda é uma porta que nos leva a um outro lugar, desconhecido, que nos deixa nús, rouba nossos apegos. Ou, se teimamos em permanecer estacionados na dor que a perda provoca, ela abre uma janela que nos faz enxergar o mundo, o outro e a nós mesmos. Temos a tendência a rejeitar – muitas das vezes odiar - tudo e todos que nos façam enxergar verdades. Verdades nos perturbam. Não queremos ser perturbados. Antes estar narcotizados. Iludidos.

Vem então o apego as crenças na esperança que resolvam a dor por nós ou nos restituam as perdas. Mas o que chamam Deus está nas crenças? Ou está justamente no fim do medo. Posso viver sem medo? Encontrar a manifestação Divina em sua forma mais pura? Encontrar o Deus que habita em mim?

Por Wal Ferrão


wal.ferrao@portalkids.org.br

26 outubro 2016

Estamos entre os 5 finalistas do Prêmio Juíza Patricia Acioli




No último dia 20 de outubro recebi uma ligação da Associação de Magistrados do Estado do Rio de Janeiro (AMAERJ) informando que eu estava entre os cinco finalistas do Prêmio Juíza Patrícia Acioli. 

É verdade? - perguntei, realmente surpresa. Não só confirmaram como fui parabenizada pelo projeto Mães do Brasil, que concorre com mais quatro valorosos candidatos na categoria Práticas Humanistas.

Emocionada, minha primeira reação foi ligar para outra magistrada, a Dra. Adriana Ramos de Mello, que é Juíza de Direito Auxiliar da Presidência do Tribunal de Justiça e tem sido uma grande parceira nos trabalhos do Portal Kids na defesa da criança desaparecida e demais violações dos direitos das mulheres. Ela foi a primeira pessoa que falei do Prêmio.

A indicação para nós - porque esta indicação é fruto de um trabalho de toda a equipe do Portal Kids e das Mães do Brasil, que é realizado com o apoio da Agência Internacional DKA Áustria - dedicamos a Dra. Adriana. Uma magistrada que nos aproximou da Justiça, nos levou a valorizar a Justiça e também exigir da Justiça. Dra. Adriana tem o perfil da Justiça que queremos e necessitamos. 

Estou muito feliz, muito honrada, muito orgulhosa e muito emocionada com a indicação. 

Por Wal Ferrão
wal.ferrao@portalkids.org.br



21 outubro 2016

Histórias de Superação

Alzerina em momento de descontração depois da caminhada 
Recentemente encontrei a Mãe do Brasil Alzerina para tratar de questões referentes ao caso se sua filha Michele, sequestrada em 2002 e até hoje desaparecida. Me surpreendi ao encontrá-la muito mais magra. 

Alzerina sofre de graves problemas cardíacos, circulatórios, de coluna, obesidade, é diabética e hipertensa. Há meses procuramos um atendimento para ela no sistema de saúde falido do Rio de Janeiro sem o mínimo sucesso. 

"Como você emagreceu! Esta linda!" - elogiei, percebendo que ela também estava toda produzida.

"Resolvi reagir. Estou caminhando uma hora por dia. Todos os dias acordo às 4 horas da manhã e saio para caminhar com uma vizinha. Às 6 horas já estou de volta para acordar e preparar os meninos para a escola", contou ela cheia de orgulho. 

"E precisa acordar tão cedo?" - estranhei. "Ah, para me produzir! Ou você acha que vou caminhar feia?" 

Depois dessa até passei a me produzir melhor para praticar minhas atividades físicas! 

Desde 2005 o Portal Kids atende Alzerina e sua família. A relação extrapolou para um carinho infinito, pois ela e seus filhos me consideram e me tratam como um membro da família Santana de Sousa. Alzerina é uma das minhas professoras de vida. Sua dignidade e capacidade de superação me ensinam muito. Hoje ela mandou essa foto para as Mães do Brasil perguntando: 

"Meninas, não estou linda?" 

Achei que era um bom momento para dizer o quanto você realmente sempre foi linda e o quanto te admiramos, Alzerina! 

Por Wal Ferrão
wal.ferrao@portalkids.org.br

29 setembro 2016

Qual Deus habita em você?


Uma reunião de sábios foi convocada para decidirem qual dos Deuses era a suprema personalidade. Um dos sábios sugeriu fazer uma pesquisa e procurou em primeiro lugar seu próprio pai, o Deus da Paixão, que o recebeu cheio de alegria, mas enfureceu-se com a frieza do filho, que alegou não querer afagos de um Deus ocupado com as emoções humanas. O Deus só não reagiu com violência porque sua esposa lembrou que o sábio era seu próprio filho. 

O sábio então saiu em busca de seu irmão, o Deus da Ignorância. Quando o irmão tentou abraçá-lo, também foi rejeitado pelo sábio, que alegou não desejar afagos de um Deus que se ocupava em salvar ignorantes. Enfurecido, o Deus também só não agrediu o irmão porque foi impedido pela esposa.

Sem paciência o sábio, na presença do terceiro Deus, que era seu amigo, o agrediu com um pontapé no peito. Ao invés de se enfurecer mais do que os outros pela agressão, o Deus perguntou ao amigo como se encontrava seu coração e agradeceu por ter limpado seu peito com o pé, pois assim poderia mais facilmente vislumbrar o amor e aconchegar sua esposa em seu peito purificado. O terceiro era o Deus da bondade. 

De volta, o sábio contou sua experiência aos demais sábios que não tiveram dificuldade em eleger a bondade como a personalidade suprema de Deus. Os Deuses nessa fábula são representados pelos sentimentos. Qual Deus habita em você?

Por Wal Ferrão

wal.ferrão@portalkids.org.br