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06 março 2015

Thais, uma menina alegre que sonhava em ser professora



Thais você sempre foi alegre, brincalhona e ativa. Será que continua? O que mais peço em minhas orações é que a maldade humana não tenha tirado de todo o seu sorriso.

Minha filha, como me orgulho da aluna excelente que você era na escola. Minha Tatá, como em casa a chamávamos.  Eu sempre dizia que você era o meu bebezão, pois sempre foi grandona.

Lembra que o que você mais gostava na vida era dançar e tirar fotos? Desde pequenininha caprichava nas poses, de perninhas cruzadas e fazendo caras e bocas.

Você queria ser professora quando crescesse e eu a incentivava. Comprei até um quadro negro para você dar aulas para suas bonecas, lembra filha?
Família para você era tudo. Sempre foi grudada conosco. Procuro não pensar no desespero que sentiu ao ser afastada de nós, mas é impossível, Tatá. Então oro, por ironia do destino oro a Deus que você tenha sido traficada e adotada por uma família que te ame quase tanto como nós, sua família verdadeira. As outras opções são tão crueis, meu bebezão. Que Deus em sua infinita misericórdia a proteja, coisa que não tive o direito de fazer.

Nunca deixamos de pensar em você. Penso você quando acordo, quando como, quando durmo, quando respiro. Sua lembrança me acompanha em todos os momentos. Nunca deixarei de lutar por você, minha filha. Eu te amo!

 

30 outubro 2010

O grito


A mãe que me passou o texto abaixo (com reflexões para os pais) contou que anda recebendo reclamações do comportamento do filho de 11 anos na escola. Excelente aluno, o menino tem - na opinião de sua professora - um incomodo defeito. Fala demais, inclusive durante as aulas.

“Ele gosta mesmo de falar”, confirmou-me, desolada, sua mãe. “Outro dia fomos fazer um passeio e só se ouvia a voz dele no ônibus. Ontem, depois de chegar da escola, chamei a atenção dele. Mandei que segurasse definitivamente a sua língua!”

“Já perguntou o motivo dele falar tanto?” – questionei.

O espanto da mãe disse tudo. Tal iniciativa não lhe tinha passado pela cabeça. Para aplacar seu constrangimento contei a história de um aluno que tive quando lecionei para uma turma de maternal, numa escola no Méier, Zona Norte do Rio de Janeiro. O menino tinha três anos, eu 19. A pouca idade não o impedia de se esgoelar como um doido, todos os dias, pois adorava gritar. As demais crianças da turma se agitavam e me pediam:

“Tia, faz esse menino calar a boca!”

Tentei todo o tipo de argumento, mas ele explicou-me que gritava assim para imitar o carro de bombeiro, profissão que admirava. Um dia também me estressei e gritei:

“Chega! Pare de gritar que está me deixando louca!”

O menino emudeceu na hora e arregalou os olhos, assim como seus coleguinhas de turma. Acho que era a primeira vez que escutavam um grito meu. Aproveitei o silêncio para prometer:

“Se você não gritar mais o tempo todo, prometo que amanhã, no recreio, deixo você gritar até cansar.”

Ele concordou e no dia seguinte, assim que chegou para a aula, tratei de relembrar nosso trato. Na hora do recreio reuni as crianças numa roda e esperei que desse o primeiro grito. Mas quem disse que ele abria a boca. Convidei uma a uma as crianças a começar. Como nenhuma gritou, eu mesma iniciei a brincadeira, que terminou numa grande algazarra. As babás do berçário não acharam graça e vieram reclamar do barulho, mas revolucionária como sempre, garanti o direito de meus alunos gritarem. Ao menos na hora do recreio. A gritaria, para felicidade geral de todos na escola, não durou nem uma semana. Uma a uma as crianças foram se desinteressando da brincadeira. Até mesmo o menino que gostava de gritar. Um dia, ao ser chamado para “hora do grito”, como batizei “o movimento”, ele comunicou:

“Tia, não quero gritar mais não!”

“Ah... Por que?” – lamentei

“É chato!”

No aniversário dele o presenteei com um carro de bombeiros.

A mãe que me ouviu contar a história a considerou muito divertida. Sugeri que naquele mesmo dia sentasse com o filho e o deixasse falar. O que quisesse. Procurasse ouvi-lo, conversar com ele, mas evitasse ditar regras, como quando ordenou que ele segurasse a língua. Animada, ela prometeu experimentar e depois me contar o resultado.

A ilustração é do quadro O Grito, de Edvard Munch, de 1893. A fonte de inspiração do pintor norueguês (*1863/+1944) pode ser encontrada na sua própria história pessoal. Educado por um pai controlador, o artista assistiu em criança à morte da mãe e de uma irmã.

Por Wal Ferrão
wal.ferrao@portalkids.org.br